quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Senti-me um escravo... e bastante"


"Senti-me um escravo... e bastante", lembra José, ainda incrédulo por ter sido enganado.

Por Sandra Ferreira

Dormia acorrentado para que não fugisse. De dia, trabalhava mais de de 12 horas, de graça. Viveu em ambiente de escravatura durante mais de dois anos.

Os trabalhos na agricultura numa quinta isolada, em Valladolid, começavam religiosamente às 7h e terminavam já perto das 21h. Ao fim de um mês a trabalhar arduamente e sem receber um cêntimo, José (nome fictício) queria voltar para Tortosendo, na Covilhã, mas o "patrão" deixou claro que era demasiado tarde. Tal como acontecia com os escravos, a tentativa de abandono valeu-lhe uma lição para não esquecer. Foi levado para dentro uma carrinha e aí levou pontapés e murros do homem que o convenceu a ir trabalhar para Espanha com a promessa de ganhar muito dinheiro.

"Fiquei aterrorizado", recorda José, que na altura ficou marcado com os olhos negros e com diversos hematomas no rosto e no corpo. Mas o pior ainda estava para vir. Durante os dois anos que se seguiram, entre 2005 e 2007 - ano em que conseguiu fugir sozinho - dormiu sempre acorrentado. Ele e mais sete portugueses da zona do Fundão e da Covilhã.

A Polícia Judiciária (PJ) da Guarda, após dois anos de investigação, anunciou anteontem que há nove pessoas identificadas, vítimas de trabalho escravo, admitindo mesmo engrossar a lista, uma vez que as investigações ainda não estão concluídas. Todas as vítimas portuguesas foram aliciadas para ir trabalhar para quintas espanholas, na zona de Valladolid, onde acabaram escravizados, roubadas e acorrentadas para que não fugissem. "Senti-me um escravo... e bastante", diz José.

O caso começou a ser investigado em 2007, quando um dos homens que também aceitou ir trabalhar para Espanha regressou à terra natal, com fome a assustado, e denunciou a situação às autoridades policiais. Fora para Espanha, convencido de que iria receber o equivalente ao ordenado mínimo. Apenas por duas ou três vezes recebeu uns parcos euros.

As suspeitas dos crimes de escravidão recaem sobre um casal e o filho encontrando-se este último numa cadeia do país vizinho por causa de um outro processo, no qual é acusado da prática de diversos crimes violentos.

A história de José começa em 2004. Foi surpreendido por um homem da vila de Tortosendo, que não conhecia, mas que lhe bateu à porta de casa a oferecer-lhe emprego e a acenar-lhe com um vencimento "muito superior" ao que alguma vez conseguiria em Portugal. Na altura encontrava-se desempregado da construção civil. Com 23 anos e solteiro não havia muito que pensar e, por isso, quase sem pestanejar, decidiu partir para Espanha com o homem que lhe prometia o céu, mas que pouco tempo depois lhe dava o inferno.

Durante dois anos, os oito portugueses, acolhidos num pavilhão, sem quaisquer condições de habitabilidade, foram tratados como escravos e sempre que, no entender do "patrão", a eficiência no trabalho não era satisfatória, eram agredidos.

De manhã, quando acordavam tomavam café, ao almoço comiam sandes. A comida quente só chegava ao jantar, pouco tempo antes de irem dormir, acorrentados, em cima de um colchão. Casas de banho não havia.

"Tomávamos banho de mangueira, no Verão e no Inverno", relata José.

Até que conseguiu fugir. "Senti-me aliviado, porque sabia que em Portugal já nada de mal me aconteceria", desabafa, sem ainda conseguir explicar como foi levado na conversa do desconhecido.

Retirado de: Jornal Público de 29.10.09

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